Catalunha + Madrid = 01-10 - parte 2

Autor: Carlos Bonaparte; Categoria: Crónicas; Tags: Política, Catalunha, Independência; Idioma: Português; Data: 01-10-2017 às 11:30

Quando a imprensa internacional começa a mostrar o que a televisão do regime (espanhol) não mostra, começamos a ter uma noção mais evidente do que acontece. Algo que a mim não surpreende.
O que me surpreendeu foi ouvir uma comentadora de um canal de televisão por cabo, em resposta ao "então defendes a independência de parte da Ucrânia", dizer: mas é diferente, porque a Ucrânia sempre foi da Rússia.

Isto revela bem o desconhecimento geral, inclusive de profissionais, sobre a situação política e geopolítica global e não apenas daqui das redondezas. Senão vejamos: a União Soviética começou em 1922. E tudo começa apenas em 1917 com a revolução dos Bolchevicks em Outubro. Só em 1922 fica concluída a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Nem todas as integrações foram voluntárias, por acaso a da antiga Ucrânia foi, embora o seu processo de paz, não. Não tenho uma opinião formada sobre as independências de Donetsk e de Lugansk que foram declaradas independentes unilateralmente a 11 de Maio de 2014. Mas não me surpreende qualquer movimento independentista ali, porque para além de ser um país gigantesco, o maior totalmente dentro do continente europeu, foi um país que ficou marcado durante séculos por alterações territoriais. A última alteração geográfica ocorreu no final da 2ª guerra mundial. Portanto ali os povos pertenceram a várias nações, a vários impérios, e é natural que ali os megapaíses tendam a desaparecer. Por isto é que mesmo na Rússia há vários movimentos independentistas (a Tchétchénia não é o único). Aliás, eu acho que a Federação Russa sobrevive por dois motivos: com tanta heterogenização não há propriamente uma noção de nação, 2. Mesmo quando há, ela é reprimida, ou então faz-se como se fez no caso da Abcásia ou na Océtia do Norte, tornadas independentes pela Federação Russa, por afronta à Geórgia. Sendo um país bastante nucliarizado, não há forma de ingerência política por parte da UE ou dos EUA.
Espanha é diferente. O Reino Unido também, até porque aqui a tradição democrática é muito maior. E porque os britânicos acharam mesmo que a Escócia jamais se iria tornar independente. E porque a Escócia não está para o Reino Unido como a Catalunha está para a Espanha.

Mas há uma coisa que não consigo entender, de todo. Porquê que tudo tem de ser de esquerda ou de direita? Porquê que um movimento independentista tem de estar associado a um lado? Não ao lado da autodeterminação, mas do lado esquerdo ou do lado direito? Eu sei que são os partidos e os governantes que nos representam e que portanto decidem por nós. Mas nos referendos isso não é uma verdade exata. Porque é o povo que é chamado a votar. O povo que se move por sentimentos e não por tendências partidárias vincadas. E isto em Espanha é particularmente verdade. Ao contrário de França e Portugal, por exemplo, em Espanha há 4 forças partidárias muito iguais. A tal ponto que só à 3ª e por cedências, é que se chegou a um consenso para eleger governo. Em Portugal as coisas também já começaram a mudar. Mas se CDU e Bloco de Esquerda estão no poder não é por disputarem eleições com PS e PSD, mas sim por alianças políticas. Como aconteceu com o CDS com respeito ao PSD. Em Espanha o cenário foi diferente, com PP, PSOE, Podemos e Ciudadanos a bater o pé uns aos outros.

O que eu tenho esperança é que se os votos puderem ser contabilizados e o "Sim" vença, a comunidade internacional comece a encarar como deve encarar, esta situação. Isto é: os catalães foram às urnas e votaram pela independência. E a autodeterminação dos povos, isto é, a capacidade de decidir pelo seu futuro, está consagrada como um dos direitos nas Nações Unidas.


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