Cheias de 1967


Cronologia: de Dia 25 de Novembro de 1967, até Dia 29 de Novembro de 1967; Comunidades: Lisboa, Odivelas, Loures, Cascais, Vila Franca de Chira, Estoril, Sintra, Oeiras, Alenquer, Alhandra; Tags: Cheias; Data da última atualização: 26-11-2017 às 03:02. sugerir/reportar uma correção







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Em termos numéricos não há dúvida. Foram mais de 700 vítimas mortais, 20 mil casas destruídas, 12 mil feridos.



21:00: começa a chover no distrito de Lisboa .Os anos de 1965 e 1966 foram bastante chuvosos, mas 1967 estava a ser um ano particularmente seco. Ainda num tempo em que existiam os Beatles , em que António de Oliveira Salazar era vivo. Nas periferias muitas das casas eram verdadeiras barracas. Um sinónimo da miséria que o regime ditatorial quis esconder, e com o qual nem sequer se preocupou.
Em 1967 havia 6 anos apenas que começou a guerra colonial envolvendo Portugal e as suas então colónias: Guiné-Bissau , Moçambique , Cabo Verde , Santomé e Príncipe , e a mais dramática de todas: Angola .
Não havia luz em muitas casas, talvez até na maior parte, nos subúrbios de Lisboa, naquela altura. Surgem as primeiras chamadas para os bombeiros, para pequenas inundações.

22:00: a chuva mantém a sua intensidade na noite já profunda. Mas ao longo desta hora começa a aumentar de forma significativa. O céu cerra a noite com muitas nuvens carregadas de água.

23:00: a chuva continua a aumentar, e naquela altura não havia barragens como há hoje. Há 50 anos o rio Tejo corria muito mais livremente, apesar de todas as condicionantes que já existiam na altura. Naquela noite... subiu. Em 3 horas o rio Tejo subiu quase metro e meio e as chuvas continuavam a aumentar de intensidade.

Dia 26 de Novembro de 1967, 00:00: começam as primeiras inundações em Vila Franca de Chira . A água começa a entrar pelas casas em Vila Franca de Chira , e chegará nesta hora também aos conselhos de Loures e Alhandra . Numa hora o rio subiu mais 1 metro no seu caudal. E não tem fim. A chuva continua a aumentar. As primeiras pessoas apercebem-se do que está a acontecer. Muitas ainda sem telefone procuram a ajuda dos vizinhos para começar a pedir ajuda. A esta altura a situação já era realmente dramática. Sem que se tivessem apercebido várias pessoas perdiam as suas vidas.

01:00: a chuva aumentou ainda mais de intensidade. Em 4 horas o rio Tejo sobe quase 4 metros. A água já inundou casas em Alenquer , Oeiras , Cascais e Odivelas . A água atingiu mais de 2 metros de altura em alguns lugares. E com corrente. Primeiro centenas, depois milhares de casas vieram abaixo nessa noite. Com elas, vidas arrastadas afogadas sob os escombros dos quais não conseguiram sair.

02:00: começa-se finalmente a ter a noção da tragédia. Surge na rádio o primeiro alerta, tanto pela Renascença como pelo Rádio Clube Português. Mas as informações são escaças. Sabe-se apenas que as chuvas torrenciais daquela noite estão a causar inundações numa área muito extensa nas periferias de Lisboa e inclusive na própria cidade.

03:00: a chuva continua a cair mas parece ter diminuído de intensidade. Mas agora o problema é a torrente que se está a gerar, arrastando árvores, casas, corpos e pedaços de corpos entrecortados por pedregulhos arrancados do chão. Não era possível o trajeto de barco pois no caminho ficaram enormes destroços que impediam a livre passagem destes meios de transporte.

04:00: não há como conter a fúria das torrentes. Quem não viu a sua casa destruída pela chuva que volta a aumentar de intensidade, vê-a ser esmagada por outras casas que vêm abaixo e são arrastadas pela torrente. E em muitos casos... é a última coisa que veem. As suas vidas acabam-se com elas. Já muita gente saiu para as ruas para começar a ajudar como pode. Ainda a chuva caía intensamente, ainda o rio Tejo continuava a aumentar a altura e a força do seu caudal, já os populares procuravam salvar as vidas dos outros como podiam.

05:00: há bombeiros nesta altura. Mas são escaços. Meios muito escaços. Só com o nascer do dia as ajudas chegam verdadeiramente. A chuva continua a cair com abundância. Mas já com períodos de pausa.

08:00Começam a chegar às redações dos jornais e das rádios os primeiros números assustadores das vítimas mortais. Primeiro 25, depois 50. Depois 83 e já perto das 9 da manhã o balanço era de quase 100 mortos.

14:00: o sol aparece mas por pouco tempo. Ainda assim, tempo suficiente para, juntamente com a ação possível das barragens, as águas começarem a descer e a sair das ruas. É então que se percebe o drama. O número de vítimas mortais é assustador. O de feridos consegue ser mais do que o triplo. Contam-se 150 mortos por aquela altura. Mas o número vai subir drasticamente em poucas horas.

17:00: vem a noite e de novo a chuva. Mas desta vez com menor intensidade, ainda que se sentisse bem. O caudal do rio Tejo estabiliza, mas a água tarda em baixar de algumas das áreas mais afetadas. Ainda assim, em 3 horas, o número de mortos é já de quase 300.

Dia 27 de Novembro de 1967 10:00: Lisboa está ainda debaixo de água. As avenidas de Ceuta e da Índia ficaram submersas tal como as linhas ferroviárias. Havia relatos de que a Praça de Espanha parecia uma autêntica piscina. E é que as chuvas da noite anterior agudizaram a situação... novamente. Mais casas. Mais vidas. As autoridades já se veem efetivamente no local. Polícia e bombeiros fazem o que podem para drenar as águas das ruas e recuperar as vidas humanas que ainda sejam possíveis. A procura faz-se debaixo dos escombros. Quase tudo veio abaixo em alguns dos conselhos lisboetas.

Dia 28 de Novembro de 2017 12:00: a chuva continua a cair, mas de forma sustentável. Tarde de mais para as quase 400 pessoas que perderam a vida. E em Lisboa a ajuda foi rápida e efetiva. Mas noutros pontos, os ditos subúrbios, sobretudo em Vila Franca de Chira , Oeiras e Loures as coisas não eram bem assim. A maior parte das vítimas mortais era destas 3 cidades. Agora com tudo mais calmo ainda era quase incrível que se tivesse passado por uma situação daquelas.

Dia 29 de Novembro de 1967: as autoridades contam já 462 mortos quando o governo decide intervir. Ao Rádio Clube Português chega o aviso a João Paulo Guerra, jornalista daquela estação, a Alice Vieira, redatora do Jornal de Lisboa e a outros tantos: "A partir deste momento não morre mais ninguém". E as notícias cessaram. Mas continoou a haver vítimas.
"Urnas e coisas semelhantes não adianta nada e é chocante" ou "“Os títulos não podem exceder a largura de meia página e vão à censura", foram algumas das mensagens que o Estado Novo enviou às redações dos jornais via telegrama. Também "Atividades beneméritas de estudantes: Cortar".

Dias seguintes: Foram precisamente os estudantes que fizeram espalhar a mensagen entre Coimbra e Lisboa a fim de captar ajudas. Sobretudo Jorge Simões José Brazão e Zeca Afonso, Entre os dias 25 e 27 de Novembro de 1967choveu tanto como a média do mês de Novembro inteiro. E em Novembro de 1967 caiu um quinto da água que caiu durante todo o ano. Em alguns lugares registaram-se 170 litros por metro quadrado, designadamente em Loures .
Dezembro de 1967: ainda se retiram cadáveres debaixo dos escombros dos edifícios. A vida seguia como podia em toda a península de Lisboa, mas a limpeza decorria lentamente. Só em Janeiro de 1968 a limpeza das ruas ficou terminada. A reconstrução começou no mês anterior, mas também esta ia lenta, fruto da pobreza do país. Ninguém saberia quantas mortes tinha havido, afinal. Não se falava disso.

Chegou o 25 de Abril de 1974 e então há muita libertação de informações. E apesar de não se saber ao certo quantas pessoas morreram (há dados não oficiais que dizem 743), sabe-se que perderam a vida mais de 700 pessoas. Houve mais de 12 mil feridos e cerca de 20 mil edificações foram derrubadas pela força das águas.

Notas e fontes
Introdução \ href="#factos">Desenrolar dos factos


Autores do texto: Carlos Bonaparte
Autor das Fotografias: Terence Spencer, jornalista galarduado com "a melhor fotografia do ano" em 1968


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